Re-colonização espanhola na América do Sul

Apresentação do livro de Marc Gavaldá "A re-colonização. Repsol na América Latina: invasão e resistências".

 

O autor catalão vinha de uma turnê de apresentações de seu livro, fruto de quatro anos de investigação sobre a empresa Repsol no subcontinente.

Esteve na Associação Desportiva Planalto (ADA) expondo os temas de seu livro e respondendo as consultas de alguns dos presentes.

Para levar adiante o trabalho de investigação ele recorreu, principalmente Bolívia e Argentina, mas também esteve em Peru, Equador e Colômbia.

Ante aqueles ali presentes, contou que um dos seus primeiros objetivos foi dar a conhecer aos espanhóis o impacto das "suas" empresas em outras partes do mundo.

"As multinacionais têm seu centro no Norte e seus recursos no Sul. Aproveitaram-se de que as democracias na região eram muito frágeis, e encontraram governantes corruptos e ladrões como o Collor de Melo, Fujimori, Sánchez de Lozada e Menem".

E reflexionou que em países como a Bolívia a independência não chegou ainda, que quando se crio a República é a oligarquia quem a planeja e a que continua tendo o poder.

Seguindo o relato de Gavaldá, em Espanha depois da ditadura de Franco, de quase 40 anos, o poder franquista se transferiu ao poder econômico na democracia espanhola. Famílias como as de Rodolfo Martín Vila, presidente de Endesa, quem fora Ministro do Interior de Franco, ou Alfonso Cortina, presidente de Repsol e filho de Cortina de Alcócer, Ministro de Relações Exteriores de Franco. Os Villalonga em Telefônica.

São exemplos da provável presença do Opus Dei nessas e outras empresas como o BBVA, Banco Santander Hispano. Os grandes poderes privados se fizeram das empresas públicas e agora o que fazem é expandir-se no capitalismo global.

Repsol em Bolívia

A Lei de Hidrocarbonetos decretada por Sánchez de Lozada baixava as regalias, as concessões se davam a 30 ou 40 anos, e não tinham uma área específica para extrair o petróleo, as novas concessões não tinham limites, atingindo 1.500.000 tens.

Gavaldá assinalou um ponto importante que estabelecia que "o subsolo de Bolívia é propriedade inalienável do Estado".

Com esta Lei se podia operar em territórios indígenas e em áreas protegidas, porque o estado faz contratos com as multinacionais.

REPSOL tem 22 blocos, 5 milhões de hectares que operam em 5 parques nacionais, o Isoboro Sécure, o Parque Carrasco, Madidi e a Reserva Pilón Lajas.

 

Com a Lei de Capitalização Jazigos Petrolíferos Promotores Bolivianos (YPFB) a Repsol comprou-a em 800 milhões de dólares, isto comparado com os 15.000 milhões de dólares com os que compraram YPF na Argentina, e pouco menos do que um roubo.

A empresa se dividiu em três, o 50% passa para as AFP que eram do Estado, mas o manejam bancos privados, e o outro 50% as empresas multinacionais.

Gavaldá explicou que na venda da empresa inclui-se o patrimônio imobiliário, e pôs como exemplo que cotaram um carro Toyota em U$s 50.

A empresa não tinha que pagar, senão que tinha uma promessa de investimento. Vendo que nessas condições "vantajosas" o negócio era rentável 100%, e em poucos anos ganharam mais do que investiram.

 

Fizeram-se de YPFB empresas como Amboco Chaco, subsidiária de British Petroleum, Andina YPF, Pluspetrol do grupo Pérez Companc (Argentina) e o gasoduto de transporte Transredes, propriedade de Enron.

Por intercâmbios de ativos entre Pluspetrol e YPF, ficou-se com a maior parte de YPFB, a empresa REPSOL.

Os povos originários da Amazônia são os mais afetados, como os yuquis, ayoreos e tacanas, porque a selva, que é onde vivem fica contaminada.

Ainda mais, para fazer as obras se mudam para as aldeias milhares de homens que para mantê-los entretidos durante os meses que ficam lá, montam-lhes locais de prostituição e também de venda de licor. Assim se soube de mulheres violentadas e outro tipo de vexames.

Impacto na Argentina

YPF que fosse empresa estatal Argentina, foi comprada por Repsol, prévia gestão dos Reis de Espanha e o próprio chefe de governo espanhol José María Aznar.

Mas em Argentina além da vital e estratégica empresa petroleira, compraram também a metade de empresa de telefonia, antes chamada Entel e hoje conhecida como Telefônica.

Entre os efeitos mais devastadores ao meio ambiente, relata o bacharel em Ciências Ambientais, uma família tentou prover-se de água em Painemil, e o que acho foi gasolina.

"As piscinas, não estavam impermeabilizadas e se contaminaram os aqüíferos. Nessa zona os povoadores mapuches têm altas concentrações de chumbo e isso os põe em perigo de extinção".

Soube-se de um caso de anencefalia, de um feto numa mulher grávida e se viu obrigada a abortar.

O ambientalista contou que uma organização ambientalista lhe fez um juízo a REPSOL por contaminação na Lagoa de Llancanelo (Mendoza) e teve uma falha favorável nos tribunais. É um bom antecedente para ganhar-lhe juízos e seria necessário que tomassem contato as diferentes pessoas afetadas pela empresa.

Outros países

O projeto Camisea em Peru é famoso porque é o projeto que competia com o que tinha Sánchez de Lozada para exportar gás a EEUU e México, via Chile.

Camisea está localizada ao sul de Cuzco, no meio da selva. A Shell operava na região e depois de sua aparição provocou no povo Nahua epidemias de sarampo e gripe. O povo originário devido a este e outros fatores, está a ponto de desaparecer.

Em 2002 várias empresas multinacionais construíram um oleoduto e a população afetada, foi a de Vindo, muito parecido a Coroico ou Vila Tunari, porque é uma zona muito bonita. A população vivia do turismo, então através de diferentes ações paralisaram as obras durante três meses e foi o estado que teve que os deter e reprimi-los.

No departamento Arauca (Colômbia), Repsol tem um bloco, as petroleiras fazem forte pressão para mudar a Lei que proíbe privatizar as empresas públicas, e não duvidam em contratar os serviços dos paramilitares para eliminar aos líderes indígenas e sindicais que se opõem a avalizar essas mudanças.

Nesses lugares habitam desde tempos imemoriais os Nasas que não esperam nada do Estado nem das empresas, eles mesmos constroem com seu próprio trabalho as escolas, onde dão educação bilíngüe e levam adiante projetos produtivos como piscifactorías que eles mesmos financiam, praticam a autonomia.

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